segunda-feira, 7 de março de 2016

Forget Princess...

Forget Princess I want to Be an Astrophysicist

No início do século 20, um grupo de mulheres conhecido como "mulheres computadores" em vários lugares do mundo (desde o Observatory Harvard até o observatório de Greenwich) ajudaram  a revolucionar a ciência da Astronomia e o nascimento da Astrofísica moderna.

Como elas revolucionaram a astrofísica moderna.

 Em 1881,  Edward Charles Pickering, diretor do Observatório de Harvard, tinha um problema: o volume de dados que entrava em seu observatório era superior a capacidade da sua equipe para analisar.  Neste período ele também tinha dúvidas sobre a competência de  sua equipe, especialmente do seu astronomo assistente.  Então ele fez o que  o que qualquer cientista do final do século 19 teria feito. Simplesmente demitiu o assistente (que era um pesquisador) e substituiu-o por uma assistente,  Williamina Fleming. Fleming se mostrou tão habilitada nos cálculos que trabalhou aqui neste mesmo prédio que estou na Universidade de Harvard por 34 anos 


Assim começou uma era na  história do Harvard Observatory, onde as mulheres - mais de 80, durante o mandato de Pickering, a partir de 1877 até sua morte em 1919 - trabalharam  para o diretor e sua equipe  em  catalogação.  A maioria são lembradas não individualmente, mas coletivamente, pelo apelido "Harém de Pickering".  Ainda tem fotos de todas elas pelos corredores que passamos para entrar  no CfA ou ir para o auditório de seminários e Teses, o Phillips Auditorium na 60 Garden Street.  O apelido  de  "Harém de Pickering reflete a situação da mulher no momento em que elas estavamPara se ter uma ideia, as expectativas tradicionais das mulheres foram mudando  lentamente neste lado mundo "moderno" e  seis de "Sete Irmãs" começaram a trabalhar  entre 1865 e 1889  na academia (Mount Holyoke abriu as suas portas em 1837) e pouco a pouco as universidades começaram a  admitir estudantes do sexo feminino em ciências.  Famílias de classe alta incentivavam suas filhas a participar dos estudos das ciências. Edward Pickering era um tal pensador progressista da época, ao menos quando se trata de abertura de oportunidades educacionais. Proveniente da Nova Inglaterra (região dos arredores de Boston), ele era  formado por Harvard em 1865 e ensinou física no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) que também esta situado em Cambridge ao lado de Harvard. Lá no MIT  ele revolucionou o método da pedagogia científica incentivando os alunos a participar em experiências. Ele também convidou Sarah Frances Whiting, uma jovem aspirante a cientista a assistir suas palestras e observar seus experimentos. 

  



Entrada do Harvard Observatory e suas históricas cúpulas em 19 de Janeiro de 2014. A foto das "Mulheres de Harvard" foi feita na frente da porta do subsolo no fundo a esquerda. O Nível da rua era mais baixo. No primeiro andar as janelas do  Phillips Auditorium. Minha sala fica no ultimo andar, ultima sala do lado direito abaixo da cupula acima do prédio e detalhe da janela da minha sala com vista o pátio de onde provavelmente esta o fotografo da foto das "mulheres de Harvard".  


A abordagem de Pickering para técnicas Astronômicas também foi progressista. No lugar de  depender exclusivamente de notas feitas a partir de observações produzidas no telescópio, ele enfatizou o uso de fotografias neste tipo de observação, que é conhecida hoje como astrofotografia. Foi difícil,  e mesmo para Pickering que era um homem  progressiva foi inevitável não impor  algum trabalho das assistentes para tarefas de escritório e em grande parte isso  reforçou a suposição comum da época de que as mulheres foram cotadas para pouco mais do que as tarefas de secretariado.  Da mesma forma ele, Pickering,  sabia que estas mulheres,  conhecidas como "mulheres computadores", eram a única maneira possível para alcançar seu objetivo de fotografar e catalogar todo o céu noturno. Ao todo, mais de 80 mulheres trabalhavam para Pickering durante seu mandato no Observatório de Harvard (que se estendeu até 1918). Eram seis dias por semana debruçadas sobre fotografias, e ganhando de 25 a 50 centavos (de dolar)  por hora (metade do que um homem teria sido pago).  O trabalho diário era em grande parte clerical: algumas mulheres condiziam as fotografias, levando em  conta  coisas como refração atmosférica e outros efeitos, a fim de tornar a imagem mais clara e pura possível. Outras iriam classificar as estrelas através da comparação com fotografias para catálogos conhecidos. Outras catalogavam as fotografias por si mesmo, fazendo anotações cuidadosas da data de cada imagem , do tempo de exposição e da região do céu que foi fotografada. As notas foram meticulosamente copiadas em tabelas, que incluíram a localização da estrela no céu e sua magnitude. "Foi uma coisa fantástica", como Fleming anotou em seu diário.



Sala de trabalho em um dia típico. Acervo do Harvard College Observatory and the Smithsonian Astrophysical Observatory.

Annie Jump Cannon  

Uma dos computadores de Pickering, no entanto,  se destacara por sua contribuição à astronomia : Annie Jump Cannon, que desenvolveu um sistema de classificação de estrelas que ainda é usado até hoje. Fiz algumas foto de a;umas das  várias fotos que existem aqui pelo corredor que passamos  todos os dias.  Annie nasceu em  Delaware, em 11 de dezembro de 1863. Seu pai, um construtor naval, tinha algum conhecimento sobre astronomia e estrelas, mas foi sua mãe, que alimentou  seu interesse desde a  infância por  astronomia. De forma geral,  os pais  nutriram seu amor pelo aprendizado  e em 1880 quando ela se matriculou na Universidade de Wellesley, e  se tornou uma das primeiras mulheres  de Delaware a frenquantar uma  faculdade.   Em 1896,  Annie Cannon  tornou-se membro do grupo de  "Mulheres de Pickering", e figurava entre estas mulheres contratadas pelo diretor do Observatório de Harvard   para completar o Catálogo Henry Draper, mapeamento e calssificando baseada em placas fotográficas cada estrela visível no céu até  magnitude 9.


O financiamento deste trabalho trouxe Anna Draper, que era uma  viúva de um  médico rico e astrônomo amador Henry Draper (dai o nome HD dos catálogos utilizados até hoje). A dinimanica do observatorio esra a seguinte. Os  homens faziam o trabalho de operar os telescópios e tirar fotografias enquanto as mulheres examinava os dados, realizados cálculos astronômicos e assim catalogando tidas as fotgrafias e registros durante o dia.  A ideia de  Pickering era de fazer um Catálogo o mais completo possivel e assim um projeto de  longo prazo e em seguida  indexar e classificar estrelas porseus  espectros.  Um trabalho giganteso para a época.



Fotos do meu acervo que fiz no corredor onde existem placas de homenagem a Anne Jump Cannon e Cecilia Payne. No CfA-Smithonian Observatory, 2014.




Cecilia Helena Payne

No mesmo corredor aqui do Smithsonia, temos as fotos de Cecilia Helena Payne (10 de maio de 1900 - 7 de dezembro de 1979), que  foi uma astrônoma/astrofísica britânica-americana e em 1925 propôs em seu doutorado a tese com a explicação sobre a composição das estrelas em termos da abundância relativa de Hidrogênio e Hélio. Todos nós estudamos isso diariamente. Cecilia, foi criada pela mãe. Sua mãe optou por  gastar todo seu  dinheiro na educacao de seu irmão.  Em 1919, ela ganhou uma bolsa para Newnham College, Universidade de Cambridge. Depois de assistir uma palestra de Arthur Eddington em 1919 sobre  sua expedição à ilha do Príncipe,  no Golfo da Guiné, na costa oeste da África para observar e fotografar as estrelas em um eclipse solar como um teste da teoria geral da relatividade de Einstein, ela decidiu seguir  os passos da  astronomia. Ela completou os seus estudos,  mas não foi premiada com um grau por ser uma mulher.  Baseado em suas notas ela foi a primeira aluna da turma, porém  Cambridge não concedia graus para  mulheres até 1948. Cecilia Payne percebeu que sua opção de carreira  no Reino Unido seria se tornar uma professora de crianças,  então ela olhou para os subsídios que tinha e foi  para os Estados Unidos. Após uma  reunião com  Harlow Shapley, o Diretor do Harvard College Observatory, que tinha acabado de começar um programa de pós-graduação em astronomia.  Ela deixou a Inglaterra em 1923. Isso foi possível graças a uma bolsa de estudo para incentivar as mulheres a estudar no Observatório.





A carreira de Payne marcou uma espécie de ponto de nao retorno para a possibilidade de doutorados para mulheres  no Harvard College Observatory, sob a direção de Harlow Shapley.  O Ph.D. de Payne  fez  brilhar a estrela das mulheres na comunidade científica,  em grande parte dominada por homens. Payne  foi uma inspiração para muitos e muitas. Incentivou a familia de Feyman (Nobel de Fisica), porem isso é outra historia. Aqui minhas fotos do corredor do Smithsonian-Harvard  CfA.






 


Fiz as fotos dos quadros do Observatório de Harvard. Feitas em Dezembro de 2014

Annie Maunder

Annie Maunder nasceu na Irlanda , em 1868. Ela ganhou uma bolsa de estudos para estudar em Cambridge, onde cursou  matemática. Ela era a melhor aluna do seu ano, porém nao recebeu o título de Bacharel  por que somente poderia ser dados para homens. Após sua graduação, ela foi  trabalhar como uma  'maquina de calcular' no Observatório Real, Greenwich. Ela era paga miseravelmente e na maioria  das vezes fazia trabalho servil. Devido a um lapso de sorte, Annie, tornou-se assistente (e depois esposa) de Edward Walter Maunder, que era o diretor do Departamento Espectroscopia  do Observatório. Eles colaboraram um trabalho sobre o rastreamento de  manchas solares criada por intensa atividade magnética.  Tempo depois Annie renunciou seu posto no Observatório,  mas continuou trabalhando com o marido e juntos mostraram que havia uma ligação entre o número de manchas solares na superfície do Sol e o clima na Terra.  Descobriram  o período prolongado no qual houve um número anormalmente baixo de manchas solares, O mínimo de Maunder, que é conhecido até hoje desta forma.  As descobertas resultaram no diagrama de borboleta e esta é uma sólida área da Astrofísica moderna.




Versão moderna do diagrama borboleta publicada por Edward Maunder e com base no trabalho feito com sua esposa , Annie. O diagrama mostra que a localização e variação das manchas solares  ao longo do ciclo de 11 anos do sol.  O Diagrama parece um pouco como a forma de uma borboletas - daí o nome.  (Crédito: NASA). Para saber mais sobre o Diagrama:
http://solarscience.msfc.nasa.gov/SunspotCycle.shtml



Caroline Herschel

Caroline Herschel foi a primeira mulher a descobrir um cometa - e encontrou oito no total. Embora seja mais conhecida por seus cometas, ela também descobriu vários objetos do céu profundo, incluindo a galáxia Sculptor. Caroline nasceu em 1750 , em Hanover na Alemanha. A partir da idade de 22 anos ela viveu com seu irmão, William, na Inglaterra. Depois de descobrir Urano, William se tornou um astrônomo da Família Real, e Caroline sua assistente.  O Rei George III concedeu Caroline um salário de £50 por seu trabalho, fazendo dela a primeira mulher a ganhar a vida com  Astronomia.
Caroline descobriu a galáxia de Scuptor, ou NGC 253  em 1783. Esta galáxia encontra-se a cerca de 13 milhões de anos-luz da Terra e está passando por uma enorme explosão de formação estelar. É uma galáxia empoeirada e  somente quando olhando para ela no infravermelho é que conseguimos perceber e ver a verdadeira extensão da formação estelar intensa no seu interior.









http://www.eso.org/public/images/eso1025a/

Esta imagem, feita pelo telescópio VISTA  revela  os braços espirais da galáxia e o núcleo brilhante. Caroline também descobriu  Messier 110. Hoje, é claro, existem muitas mulheres que trabalham em astronomia. As barreiras de entrada não são as mesmos que eram nos dias de Caroline Herschel, Annie Maunder, Cecilia Payne, Annie Jump Cannon e outras.  Porém há ainda  um longo caminho a percorrer  para que haja um número razoável de mulheres nas ciências, engenharias e tecnologias. Expor o problema é importante e isto é ponto de pauta nas gandes universidades do mundo inteiro.

Para minhas amigas astrônomas da Sociedade Astronômica Brasileira.  Minhas orientadoras de Doutorado que são duas grandes mulheres da Astrofisica Estelar. Importantes não somente na França mas em todo o mundo.  S. Vauclair e C. Charbonnel.   Merci!  Minhas colaboradoras pelo mundo. E para minhas alunas que estão começando a longa caminhada da Astronomia. Para alto e avante!



Alunas de Graduação em Física da UFRN  e futuras Astrônomas. Da esquerda para direita: Marina Ribeiro, Maria Clara R. F. da Silva, Paola G. Oliveira de Melo,  Larissa L. Amorim,  Victória M.   L. e Misa Uehara.  Foto em Fevereiro de 2016 no Dep. de Física da UFRN



Para saber mais sobre  Websites on Women in Astronomy

https://www.cfa.harvard.edu/~jshaw/pick.html
https://www.cfa.harvard.edu/~alexg/ajc.html
http://w.astro.berkeley.edu/~gmarcy/women/history.html
https://en.wikipedia.org/wiki/Harvard_Computers








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 Prof. José-Dias do Nascimento Jr.  é  PhD em Astrofísica  pela Universidade de Toulouse, Françe (1999), pesquisador  do Harvard–Smithsonian Center for Astrophysics (CfA) e  professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. UFRN, Natal RN e Pai de Malu!